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"Os Sapos", de Manuel Bandeira

(versão reduzida para declamar em sala de aula)

Imagem criada pela IA nano banana2


    Enfunando os papos,

    Saem da penumbra,

    Aos pulos, os sapos.

    A luz os deslumbra.


    O sapo-tanoeiro,

    Parnasiano aguado,

    Diz: - "Meu cancioneiro

    É bem martelado.


    Vede como primo

    Em comer os hiatos!

    Que arte! E nunca rimo

    Os termos cognatos.


    O meu verso é bom

    Frumento sem joio.

    Faço rimas com

    Consoantes de apoio.

Gibran Khalil Gibran

 Aos pais no seu dia


Vossos filhos não são vossos filhos.

São os filhos e as filhas da ânsia da Vida por si mesma. (...)

Podeis outorgar-lhes vosso amor,

mas não vossos pensamentos. (...)

Pois suas almas moram na mansão do amanhã,

que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.

Podeis esforçar-vos por ser como eles,

mas não procureis fazê-los como vós.

Porque a vida não anda para trás

e não se demora com os dias passados.

Mar Português

escultura do poeta
   Pequeno poema com uma das mais famosas frases do escritor português:

"Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!


Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."

Fernando Pessoa

RAÍZES

arte da exposição raízes poéticas
 Das raízes vem o medo, os anseios,

Uma nascente, fundamentais devaneios.

Em dias que não mudam, o autojulgamento,

Ótica desigual, é distante o sentimento.


Nessa visão realista, uma trilha de atos falhos,

Ansiedade nas manhãs, esperança de aplausos.

Moldados pelas lutas, trabados ao cansaço,

Um ringue diverso, que transforma, vira aço.


Película etária, com metamorfoses morais,

Um ciclo finito, que ultrapassa os minutos irreais.

Decifrados, somos os novos maquinários,

Diante das opções, profissionais arbitrários.


Bernardo Nielsen 2024

LÁGRIMA DE PRETA

Encontrei uma preta
Que estava a chorar,
Pedi-lhe uma lágrima
Para a analisar.

Recolhi a lágrima
Com todo o cuidado
Num tubo de ensaio
Bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
Do outro e de frente:
Tinha um ar de gota
Muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
As bases, os sais,
As drogas usadas
Em casos que tais.

Ensaiei a frio,
Experimentei ao lume,
De todas as vezes
Deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
Nem vestígios de ódio,
Água (quase tudo)
E cloreto de sódio.

MINHA DESGRAÇA

Minha desgraça, não, não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco...

Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem me dera!) é o dinheiro...

Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que o meu peito assim blasfema,
É ter para escrever todo um poema,
E não ter um vintém para uma vela.


Manuel Antônio Álvares de Azevedo, foi escritor, contista e poeta. Toda a sua obra, escrita enquanto estudava Ciências Jurídicas, foi publicada após sua morte que ocorreu em 1852, quando ele tinha apenas vinte anos. Foi o suficiente para tocar gerações de leitores e escritores e fazê-lo patrono da cadeira número 2 da Academia Brasileira de Letras.

Os anjos de Sodoma

 Eu vi os anjos de Sodoma escalando

     um monte até o céu

E suas asas destruídas pelo fogo

    abanavam o ar da tarde

Eu vi os anjos de Sodoma semeando

    prodígios para a criação não

perder seu ritmo de harpas

Eu vi os anjos de Sodoma lambendo

    as feridas dos que morreram sem

alarde, dos suplicantes, dos suicidas

    e dos jovens mortos

Eu vi os anjos de Sodoma crescendo

    com o fogo e de suas bocas saltavam

medusas cegas

Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e

    violentos aniquilando os mercadores,

roubando o sono das virgens,

    criando palavras turbulentas

Eu vi os anjos de Sodoma inventando a

loucura e o arrependimento de Deus


Roberto Piva

CONFIÇÃO

É certo que me repito,
é certo que me refuto
e que, decidido, hesito
no entra e sai de um minuto.

É certo que, irresoluto
entre o velho e o novo rito,
atiro à cesta o absoluto
como inútil papelito.

É tão certo que me aperto
numa tenaz de mosquito
como é trinta vezes certo
que me oculto no meu grito.

Certo, certo, certo, certo
que mais sinto que reflito
as fábulas do deserto
do raciocínio infinito.

É tudo certo e prescrito
em nebuloso estatuto.
O homem, chamar-lhe mito
não passa de anacoluto.

Carlos Drummond de Andrade
(Ilustração: Van Gogh)

LIRAS PARA MARÍLIA

 Lira era um instrumento musical de cordas, utilizado pelos romanos para acompanhar declamações poéticas, acabou dando nome a versos de amor. Tomás Antônio Gonzaga, "flechado pelo Cupido", como ele mesmo disse, escreveu dezenas de poemas "líricos" para uma tal de Marília. Chamou a maioria desses versos de Liras. Lendo "Marília de Dirceu" percebi rapidamente que Dirceu não era um sobrenome, mas sim um nome próprio. Como bom leitor de Agatha Cristie, não  consegui desvendar com exatidão quem era o Dirce, precisei da ajuda de uma professora de literatura para me explicar as características do Arcadismo para compreender melhor a obra.

 

LIRA V (da primeira parte)

 

Acaso são estes

Os sítios formosos,

Aonde passava

Os anos Gostosos?

São estes os prados,

Aonde brincava,

Enquanto pastava

O manso rebanho

Que Alceu me deixou?


    São estes os sítios?

    São estes; mas eu

    O mesmo não sou.

    Marília, tu chamas?

    Espera, que eu vou.


Daquele penhasco

Um rio caia;

Ao som do sussurro

Que as vezes dormia!

Agora não cobrem

Espumas nevadas

As pedras quebradas:

Parece que o rio

o curso voltou.


    São estes os sítios?

    São estes; mas eu

    O mesmo não sou.

    Marília, tu chamas?

    Espera, que eu vou.

 

Meus versos, alegre,

Aqui repetia,

O eco as palavras

Três vezes dizia.

Se chamo por ele,

Já não me responde;

Parece se esconde,

Cansado de dar-me

Os ais que lhe dou.

 

    São estes os sítios?

    São estes; mas eu

    O mesmo não sou.

    Marília, tu chamas?

    Espera, que eu vou.

 

Aqui um regato

Corria sereno,

Por margens cobertas

De flores e Feno;

À esquerda se erguia

Um bosque fechado;

E o tempo apressado,

Que nada respeita,

Já tudo mudou.

 

    São estes os sítios?

    São estes; mas eu

    O mesmo não sou.

    Marília, tu chamas?

    Espera, que eu vou.

 

Mas como discorro?

Acaso podia

Já tudo mudar-se

No espaço de um dia?

Existem as fontes,

E os freixos copados;

Dão flores os prados.

E corre a cascata,

Que nunca secou.


    São estes os sítios?

    São estes; mas eu

    O mesmo não sou.

    Marília, tu chamas?

    Espera, que eu vou.

 

Minha alma, que tinha

Liberta a vontade,

Agora já sente

Amor e saudade,

Que sítios formosos,

Que já me agradaram,

Ah! não se mudaram;

Mudaram-se os olhos,

De triste que estou.

 

   São estes os sítios?

    São estes; mas eu

    O mesmo não sou.

    Marília, tu chamas?

    Espera, que eu vou.

 

Castro Alves - poeta dos escravizados

 
Existe um povo que a bandeira empresta

P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!...

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?

Silêncio. Musa... chora, e chora tanto

Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...


Trecho inicial da parte VI do Poema Navio Negreiro, disponível completo AQUI.


.".. quando for hora de falar... é tão difícil..."

 
"Quero ser o teu amor amigo.

Nem demais e nem de menos.

Nem tão longe e nem tão perto.

Na medida mais precisa que eu puder.

Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,

Da maneira mais discreta que eu souber.

Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.

Sem forçar tua vontade.

Sem falar, quando for hora de calar.

E sem calar, quando for hora de falar.

Nem ausente, nem presente por demais.

Simplesmente, calmamente, ser-te paz.

É bonito ser amor amigo, mas confesso é tão difícil aprender!

E por isso eu te suplico paciência.

Vou encher este teu rosto de lembranças,

Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias..."


Fernando Pessoa

POEMA DA MENTE QUE MENTE

É um presidente que mente,
Mente de corpo e alma, completa/mente.
E mente de maneira tão pungente
Que a gente acha que ele mente sincera/mente,

Mais que mente, sobretudo, impune/mente...

Indecente/mente.
E mente tão nacional/mente,
Que acha que mentindo história afora
Vai nos enganar eterna/mente

 Affonso Romano de Sant`Anna

A PALAVRA NEGRO

A palavra negro dói,
como um soco no nariz.
A palavra negro fere a consciência desse país.

A palavra negro machuca
aqueles que a ouvem
e nada sabem da palavra negro.

A palavra negro causa medo,
e não sendo carnaval a fantasiam
(negão, mulato, moreno, neguinho
negãozinho e muitas outras).
A palavra negro não precisa
de superlativo ou diminutivo.

Apalavra negro incomoda,
faz feridas, de tal maneiraorgeff
que os censos a tapam
com esparadrapo pardo.
A palavra negro não vem de graça.

A palavra negro pesa.
Embrutecimento, o outro,
o ser ficcionado, o segundo,
defeituoso ser humano, menos.

A palavra negro pesa dez vezes mais
que qualquer cruz carregada no mundo.

A palavra negro não foi fabricada por um negro.
Os negros ergueram a palavra negro,
plasticidade, movimento, força,
inteligência. Inventaram-se.
É conscientemente que você
habita (diz) a palavra negro?

Jorge Fróes

Uma poesia gaúcha

Essa eu ajudei a declamar em forma de Jogral numa formatura do EJA:

O Tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...

Mario Quintana

Literatura Viva


    Brecht para os íntimos, era um dramaturgo socialista alemão, militante em versos e prosas deixou suas marcas na cultura revolucionária do início do século XX. O "Analfabeto político" é um escrito já clássico na esquerda brasileira. Não sei quem traduziu esses poemas, mas são já fáceis e acessíveis hoje em dia de serem encontrados na internet. 

 (Bertold B. Primeiro levaram os negros...)

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando

Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.


*** 


 Bertold B. Perguntas de um trabalhador que lê
Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída. Quem a reconstruiu tantas vezes?
Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha
da China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem triunfaram os césares?

No entanto a facilidade de acesso as obras escritas e traduzidas de hoje está diretamente relacionada a facilidade de disponibilização dessas na rede o que causa algumas situações interessantes:

"Mas Quem é o Partido?"


Mas quem é o partido?
Ele fica sentado em uma casa com telefones?
Seus pensamentos são secretos, suas decisões desconhecidas?
Quem é ele?

Nós somos ele.

Você, eu, vocês – nós todos.
Ele veste sua roupa, camarada, e pensa com a sua cabeça
Onde moro é a casa dele, e quando você é atacado ele luta.
Mostre-nos o caminho que devemos seguir, e nós
O seguiremos como você, mas
Não siga sem nós o caminho correto
Ele é sem nós
O mais errado.
Não se afaste de nós!
Podemos errar, e você pode ter razão, portanto
Não se afaste de nós!



Que caminho curto é melhor que o longo, ninguém nega
Mas quando alguém conhece
E não é capaz de mostrá-lo a nós, de que nos serve sua sabedoria?
Seja sábio conosco!
Não se afaste de nós!


Bertolt Brecht

LIBERDADE

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.


Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome



Carlos Marighella

SONETO DE FELICIDADE

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


(Vinicius de Moraes)

AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER...

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

(Luiz Vaz de Camões)

SOBRE SER

Sou um ser sucinto
eminentemente político
essencialmente poético

Sou louco
e um pouco
meio tonto de tão bobo

Sou complicado confesso
numa fase confusa
corro atrás do sucesso

Sou resistente
sempre persistente
em meu ser diferente

E presunçoso, presumo
que já disse tudo
o que podia
o que devia
o que sabia

E esperançoso, espero
que não me chame
só de teimoso