
Em 1917, o maior país do mundo em extensão territorial parou de funcionar. A Rússia, governada por czares há mais de 300 anos, viu seu império desmoronar em questão de dias. O que aconteceu naquele ano não foi apenas mais uma mudança de governo, foi a primeira vez na história que operários e camponeses, organizados em conselhos populares (sovietes em russo), conseguiram tomar o poder e construir uma experiência real de sociedade baseada no socialismo.
No início do século XX, a Rússia era uma contradição ambulante. Enquanto países como Inglaterra e França já haviam passado por revoluções burguesas e industrialização avançada, os russos ainda viviam sob um regime monárquico com o poder centralizado nas mãos do czar, que governava sem constituição nem parlamento que limitasse suas decisões.
A economia russa era profundamente atrasada como bem descreveu o escritor russo Fiódor Dostoiévski. A servidão havia sido abolida apenas em 1861, tornando a Rússia o último país da Europa a acabar com esse regime medieval. Mas a libertação dos servos não veio acompanhada de terras: a nobreza continuava dona da maior parte das propriedades rurais, e os camponeses que eram a maior parte da população, viviam na miséria sem saber o que era um salário.
Nas cidades, a industrialização tardia começava a ganhar força, mas em condições brutais. Os operários trabalhavam de 12 a 16 horas por dia, recebiam salários miseráveis e viviam amontoados em cortiços sem qualquer infraestrutura. Enquanto isso, a família real ostentava riqueza e luxo, alheia ao sofrimento do povo.
Quando a Primeira Guerra Mundial estourou em 1914, o czar Nicolau II viu nela oportunidades de lucros e até motivos religiosos para demonstrar seu poder. Mas a realidade foi bem diferente. O exército russo era o maior do mundo em números, mas também o mais despreparado. Soldados iam para a frente de batalha sem armas, instruídos a "pegar o fuzil do companheiro que cair". Faltavam munição, uniformes, comida e treinamento. Enquanto os soldados morriam aos montes (cerca de 5,5 milhões de baixas entre mortos, feridos e prisioneiros até 1917), a economia doméstica colapsava.
No front, os soldados percebiam que estavam morrendo por nada. Em casa, suas famílias passavam fome. O governo priorizava o esforço de guerra e deixava a população civil desassistida. A inflação disparava, os salários não acompanhavam os preços, e o frio do inverno rigoroso de 1916-1917 matava tantos quanto a guerra.
A queda do czar Nicolau II, em março de 1917, foi resultado direto do colapso da Rússia sob o peso da Primeira Guerra Mundial: derrotas humilhantes, milhões de mortos, fome generalizada e a desmoralização completa do regime. Quando operárias de Petrogrado saíram às ruas no Dia Internacional da Mulher exigindo "pão", a greve rapidamente se alastrou e, desta vez, os soldados se recusaram a atirar no povo e aderiram à revolta. Abandonado por todos, o czar abdicou.
Assumiu então um Governo Provisório, que cometeu o erro fatal de manter a Rússia na guerra, ignorando os clamores populares por paz, terra e pão. Foi nesse vácuo que os bolcheviques, liderados por Vladimir Lenin com o programa radical de "Todo poder aos sovietes!", ganharam apoio massivo dos operários, camponeses e soldados. Em novembro de 1917, organizaram a tomada do Palácio de Inverno quase sem derramamento de sangue, derrubaram o Governo Provisório e decretaram imediatamente a paz e a reforma agrária pela primeira vez na história, um governo socialista chegava ao poder.
O novo governo chamou-se Conselho dos Comissários do Povo (Sovnarkom), com Lenin na presidência. No entanto a vitória bolchevique não significou paz imediata. Pelo contrário a Rússia mergulhou em uma guerra civil brutal entre o Exército Vermelho (bolchevique) e o Exército Branco (monarquistas, liberais e até socialistas moderados) que duraria até 1922 .
Em março de 1918, Lenin cumpriu a promessa de paz assinando o Tratado de Brest-Litovsk com a Alemanha, cedendo vastos territórios (Finlândia, Ucrânia, Polônia, Países Bálticos) em troca da saída da guerra. Foi um preço alto, mas pela paz, pela preservação de vidas humanas, foi assinado.
Em julho de 1918, com as forças brancas avançando e rumores de que queriam libertar a família real, os bolcheviques executaram Nicolau II, sua esposa Alexandra e seus cinco filhos em Ecaterimburgo. Os corpos foram ocultados e só seriam encontrados décadas depois.
A Revolução Russa de 1917 não foi apenas mais uma mudança de governo. Foi um evento que mudou o curso do século XX. Pela primeira vez, operários e camponeses organizados conseguiram não apenas derrubar um regime, mas tentar construir uma nova sociedade baseada em princípios socialistas. Esses socialistas russos, que antes se chamavam bolcheviques adotaram o nome de comunistas, criaram o Partido Comunista e tiveram impacto global: Inspiraram movimentos comunistas em todo o mundo. Influenciaram revoluções na China, Cuba e outros países. Fizeram os países capitalistas concederem direitos sociais para evitar revoluções em seus próprios territórios. Criaram um novo país, a URSS (União da Repúblicas Socialistas Soviéticas – CCCP em russo), que se tornaria uma superpotência e protagonista central da Guerra Fria
Para os comunistas, a Revolução de Outubro permanece como símbolo de que outro mundo é possível. Para os democratas liberais, foi um alerta sobre os perigos da exploração social desenfreada. Para os historiadores, é um lembrete de que o povo, quando organizado, pode mudar a história.
