"Os Sapos", de Manuel Bandeira

(versão reduzida para declamar em sala de aula)

Imagem criada pela IA nano banana2


    Enfunando os papos,

    Saem da penumbra,

    Aos pulos, os sapos.

    A luz os deslumbra.


    O sapo-tanoeiro,

    Parnasiano aguado,

    Diz: - "Meu cancioneiro

    É bem martelado.


    Vede como primo

    Em comer os hiatos!

    Que arte! E nunca rimo

    Os termos cognatos.


    O meu verso é bom

    Frumento sem joio.

    Faço rimas com

    Consoantes de apoio.


    [...]


    Brada em um assomo

    O sapo-tanoeiro:

    - "A grande arte é como

    Lavor de joalheiro.


    [...]


    Longe dessa grita,

    Lá onde mais densa

    A noite infinita

    Veste a sombra imensa;


    Lá, fugido ao mundo,

    Sem glória, sem fé,

    No perau profundo

    E solitário, é


    Que soluças tu,

    Transido de frio,

    Sapo-cururu

    Da beira do rio...  

Um comentário:

  1. Este poema foi lido na noite de 15 de fevereiro de 1922 por Ronald de Carvalho (já que Manuel Bandeira, doente, não pôde ir a São Paulo no famoso evento da Semana da Arte Moderna). Causou Escândalo: A plateia, composta pela elite paulistana acostumada à poesia tradicional, reagiu com vaias, urros, grunhidos e grande alvoroço, justamente a reação que os organizadores esperavam para provocar o debate sobre a arte nacional. É uma sátira, uma crítica bem-humorada e ferina aos poetas do Parnasianismo (a "arte pela arte", rica em formas fixas e vocabulário rebuscado), que são representados pelos sapos. A fala do "sapo-tanoeiro", por exemplo, ironiza a preocupação excessiva com a rima e a métrica perfeita.

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