LIÇÕES ANTIGAS E ATUAIS

No século XVII, um missionário católico lusitano, o Padre António Vieira, proferia reflexões usando e abusando de expressões em latim e temas bíblicos, em falas que lançavam olhares críticos sobre a sociedade de seu tempo, e suas palavras, pasmem, soam com uma atualidade assustadora.

Vieira veio ao Brasil catequizar índios e desenvolveu com eles um olhar diferenciado da história e dos acontecimentos da sua época. E essas reflexões ficaram registradas nos famosos sermões do padre.

Um desses sermões mais corajosos e contundentes é o  "Sermão do Bom Ladrão", escrito em 1655, em que ele usou a história bíblica do crucificado que foi salvo para tecer uma tese teológica e a partir dai estabelecer um princípio de justiça social: 

"Não há salvação sem a restituição do que foi roubado."

Para ele, de nada adiantam as orações ou as esmolas de quem, tendo enriquecido ilicitamente, se recusa a devolver o que é alheio. Ele contrasta o "Bom Ladrão" da Bíblia, que era pobre e não tinha como restituir, com a figura de Zaqueu, o cobrador de impostos rico a quem Jesus só concedeu a salvação depois que ele prometeu devolver em quádruplo tudo o que havia defraudado. 

Vieira cita coisas antigas para se referir ao tempo em que viveu, a época da conquista europeia da América e com sabedoria identificou quem são os verdadeiros ladrões. Ele argumenta que os malfeitores mais perigosos não são os pobres que roubam por necessidade, mas os ladrões de "alto calibre": os governantes, magistrados e administradores corruptos. Estes, protegidos pela autoridade, saqueiam cidades e reinos inteiros. "Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam", denunciava o padre, numa frase que poderia ser manchete de jornal hoje.

Sua crítica, porém, não para nos subalternos. Vieira avança corajosamente para responsabilizar os próprios reis. Se um governante nomeia um corrupto para um cargo, sabe de seus crimes e, pior, o mantém no poder, torna-se cúmplice. Para ilustrar como essa corrupção sistêmica funcionava, Vieira usa uma analogia genial e mordaz: esses administradores, dizia ele, "conjugam o verbo "roubar" em todos os modos, tempos e pessoas", esgotando as províncias que deveriam proteger.

A conclusão do sermão é um alerta dramático. Ele inverte a imagem do Bom Ladrão que pede para ser lembrado no paraíso. Na realidade corrupta do poder, são os ladrões poderosos que, com sua conduta e a conivência de seus superiores, "levam consigo os reis ao inferno". A culpa do governante, portanto, é dupla: por colocar lobos para cuidar do rebanho e por falhar em sua obrigação máxima de garantir justiça e fazer restituir ao povo o que lhe foi roubado.

Quase 400 anos depois, a voz de Vieira ecoa como um lembrete poderoso. Suas lições sobre a indissociável ligação entre ética, poder e responsabilidade mostram que, enquanto a corrupção e a impunidade persistirem, a crítica do grande orador sacro permanecerá dolorosamente atual, desafiando governantes e cidadãos a construírem uma sociedade onde os ladrões de alto calibre não ditem as regras do jogo. 

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